Efeito da Taxa de Câmbio na Inflação

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Nosso quiz mostrou que a maioria quer saber o efeito da taxa de câmbio na inflação. Segue a resposta de nossa estrategista de câmbio, Fernanda Consorte.



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Efeito da Taxa de Câmbio na Inflação



Vamos combinar uma coisa? É muito chato chegar em uma conversa na qual o interlocutor está falando de causalidades e relações entre situações que não entendemos. É igual tentar contar piada em outro idioma que não o seu de criação.E economistas são cheios dessas gracinhas. Basta a taxa de câmbio começar a subir que esses “seres” começam a pipocar notícias de jornais com frases como “real desvalorizou, agora a taxa de juros vai ter que subir” — um clássico — ou “ociosidade da economia contém impacto do dólar nas expectativas de inflação”. Oi? E nessa hora, a gente fica com aquela cara de intelectual que entendeu tudo, não? À primeira vista parece que não, mas acredite, essas frases fazem muito sentido. Basicamente, porque a inflação responde às variações na taxa de câmbio — e no caso brasileiro, responde muito (!).


Explico. Vamos considerar como indicador de inflação o IPCA (índice de preços ao consumidor, calculado pelo IBGE), alvo das metas de inflação. O IPCA é dividido entre preços administrados, aqueles ajustados por algum regulador (ex.: energia elétrica, ônibus, água e esgoto) e representam 26% do índice total. O restante (74%) da cesta de produtos dentro do IPCA são os chamados preços livres. Desses, 41% referem-se aos preços não comercializáveis, que são basicamente os serviços (manicure, restaurantes, etc.), e 33% são os bens comercializáveis, ou seja, bens que são passiveis de importar e exportar, como alimentos, veículos, roupas, etc. — e é nesta cesta de produtos que a taxa de câmbio tem efeito direto.

Me acompanhe: se você for comprar um carro, seja ele produzido fora do Brasil, seja ele produzido com algumas peças importadas, quando temos uma mudança na taxa de câmbio, os contratos de importação desses insumos serão reajustados a nova taxa quando houver novos pedidos. E cada produto tem sua cadeia e tempo de produção, por isso, o efeito da taxa de câmbio nos preços só acontece quando a desvalorização/valorização ocorre e muda o patamar do valor da moeda. Desta forma, importante ter em mente que (i) volatilidades diárias e por curto período não costumam afetar a inflação, e (ii) o efeito não é imediato: toma o tempo da cadeia de produção e venda, ou seja, o efeito dos movimentos da taxa de câmbio na inflação tem defasagens.

Finalmente, também existe o efeito “aceitação” ou efeito demanda. Se a economia estiver forte, crescendo, é muito mais fácil repassar os preços de aumento do custo de produção; no cenário oposto, num ambiente de economia ociosa, o repasse tende a ser menor. Assim, o efeito da taxa de câmbio na inflação é maior conforme o ritmo do crescimento econômico.

Vamos aos números? O repasse do câmbio para inflação é estimado em 6% a 8%, ou seja, para cada 10% de desvalorização do real (aumento na taxa de câmbio), há um aumento de 0,6 - 0,8 ponto percentual no IPCA em até 12 meses — vale lembrar que alguns preços administrados também sofrem influência da taxa de câmbio, como energia elétrica, e esses têm reajustes anuais. Assim, a desvalorização do real de 25%, observada desde janeiro/18, deve impactar a inflação em até 2 pontos percentuais nos próximos meses, mas vamos lembrar que o PIB está com crescimento baixo, então algo pode ficar para trás... Mas, mesmo assim, é bastante coisa...
Fernanda Consorte
Estrategista de Câmbio
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Nota da Autora

Talvez existam pessoas que tenham o heroísmo (ou a cara de pau?) de fazer projeções com forte grau de convicção para a taxa de câmbio brasileira. Eu, economista de formação, com mais de 10 anos andando nesse mercado de inconstâncias, prefiro dizer que sou capaz de dar opiniões, quiçá direções para essa variável. Humildade posta, eventualmente tomarei a frente para dar opiniões sobre fatos que podem gerar consequências no mercado, tentando desvendar quem vem primeiro: o ovo ou a galinha.
       
       

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